31 agosto 2007

Diário IV - O Café Fresco















O Café Fresco, agora unicamente comandado pela amiga Isabel, é o local mais cool da Zambujeira, e onde se pode ouvir a melhor música das redondezas, não fosse ele ponto de encontro de alguns conhecidos artistas da nossa praça e até de além-fronteira.

E é vermo-nos, ao final do dia, diante dum pôr-do-sol magnífico a retemperar forças e sentidos, a afogar-nos, lentamente, no sagrado graal da cerveja.

Ai que saudades...

Diário III - O caçador de peixes.















Ainda meio desapontado pelo anterior desfecho vejo descer para o pesqueiro onde me encontrava um grupo de rapazes e de raparigas caminhando alegremente, falésia abaixo.
Ao chegarem junto de mim, um deles, talvez o mais velho, saúda-me dando as boas tardes. E num sotaque que percebi ser daquelas paragens, perguntou-me:
- Então amigo, isso tá a dar? Já apanhou alguma coisa?
Eu de semblante carregado respondi-lhe que não. Que tinha deixado fugir uma dourada, das boas, ao que ele retorquiu, até com um pouco de gabarolice:
- Olhe, eu vou caçar o meu jantarinho!
E começou a vestir o fato de mergulho. Armou a espingarda e meteu-se dentro de água, desaparecendo por entre as ondas.
- És mesmo convencido, disse eu comigo.
Continuei na minha pesca, mas não senti mais sinais de peixe, e ao fim de quase uma hora já me preparava para arrumar a tralha quando reparei que o rapaz voltava para terra. Ao longe dir-se-ia que um pequeno Poseidon, com o seu tridente na mão, vinha em peregrinação, carregado de tesouros do seu reino prestar culto a alguma terrena deusa, pois do seu cinto pendiam, brilhantes de vida uma quantidade de peixes.
- Bem, parece que te ajuizei mal, rapaz. Pensei eu.
Preparava-me para subir a falésia quando a Fátima me diz:
- Olha, o rapaz vem na nossa direcção. E com ele traz alguns peixes!
Meia dúzia de passos depois, o rapaz estava à nossa frente.

- Amigo, disse ele. – Nós somos seis pró jantar. Comemos um peixe cada. Como cacei nove, sobram estes três. Será que os querem pra vocês?
E estende-me três belíssimos sargos!
Eu olhei para a Fátima. Olhei para o rapaz. Olhei para os sargos já nas minhas mãos e com uma cara de completa incredulidade disse-lhe que sim, que os queria.
Agradeci. E iniciámos a subida da falésia com o terrível desconforto de trazer no saco o peixe que não pesquei, oferecido por uma pessoa que não conhecia e que na única oportunidade que tivera, julgara mal.
Durante a subida, do meio da rocha onde estava, o rapaz ia-me acenando com a mão, a que eu ia respondendo, como velhos amigos, até que a sua imagem não passava mais do que um ponto negro na paisagem.
Não nos voltámos a encontrar mas creio que não mais esquecerei o seu sorriso confiante, e a lição de humildade deste caçador de peixes.

E é assim, amigo Charraz, que me confesso pecador mentiroso, no momento em que os peixes se encontravam na mesa, ao responder peremptório à tua dúvida, que sim, que os tinha pescado e que não tinha passado pelo mercado na véspera.
Orgulho ferido de pescador. Mas, lá diz o ditado: Mais vale tarde do que nunca!

Diário II - A primeira luta







Como já devem ter percebido, o prazer que tiro do mar e das suas praias resume-se, quase exclusivamente, ás constantes idas à pesca.
Quero aqui dizer que não sou um assíduo e experimentado pescador. É um gosto que me foi transmitido pelo meu pai e que, normalmente, só acontece quando estou em férias.
Encaro a pesca como um exercício de descontracção e de comunhão entre o espírito e a natureza dos locais onde normalmente pesco. Não me vejo a pescar no meio de uma multidão (se não estiver só, não pesco) ou num local onde o mar não me conte uma estória. Por isso, se voltar para casa de saco vazio não é isso que me vai impedir de voltar no dia seguinte. É claro que se o mar for generoso e me presentear com um belo Sargo ou Robalo, o peito, além de inchado com a maresia que a fresca brisa me trouxe, vem repleto de vaidade e de dobrado contentamento, já a pensar em grelhas, carvão e vinho tinto.

Assim aconteceu no primeiro dia em que pesquei nestas férias:

Tínhamos apanhado a tiagem (minhocas que vivem enterradas na areia, normalmente debaixo das rochas, e que são o meu isco preferido) na manhã desse dia.
Depois do almoço na Ti Vitória combinámos, eu e a Fátima, inaugurarmos oficialmente a época da pesca, e fomos para a laginha, que é um pesqueiro de fácil acesso, onde se está à vontade e sem cuidados de maior, próprio para o acostumar dos músculos aos mais difíceis pesqueiros.
Depois de armado o equipamento faço o lançamento para o mar. Confesso que estava um pouco ansioso, seria que este ano era ano de encher o frigorífico?
Passaram-se uns bons quinze minutos e nada. Não. O peixe não picava. Vamos acreditar que o cardume da abundância estaria a chegar a qualquer momento, e que mais tarde ou mais cedo acabaria por sacar uma escama.
Estava perdido nestas minhas conjecturas quando de repente, a cana vergou a ponta, num inusitado esticão em direcção à água, como se, ela própria, fosse criatura de mar, e que em cima daquele rochedo agonizasse, fora do seu meio.
Eu começo a recuperar a linha, e pela luta que o peixe estava a dar, percebi que era um dos grandes que tinha ferrado. Ao fim de algum tempo começo a ver a silhueta dele, brilhando na superfície das águas claras. Era uma dourada. Grande, como nunca tinha apanhado nenhuma. Era o que na gíria se chama uma tábua. Devia de ter à volta de 3 quilos. A adrenalina corria-me à solta nas veias fazendo-me tremer de excitação. Já só o queria ver pendurado na linha, a subir, vencendo o espaço que o separava de mim.
Até que, no momento em que a sua cabeça saiu fora da água, desferiu um desesperado golpe, arqueou o corpo, e como um silvo de chicote a linha partiu libertando o meu breve prisioneiro. A luta tinha chegado ao fim e o derrotado era eu que incrédulo olhava a linha abandonada ao vento, na ponta da cana.

Diário I















No princípio era a Música – Sines, Festival de Músicas do Mundo.

- Momentos bons:


Um fim-de-semana na companhia do Rogério Charraz, a Marta e o Bruno e claro da minha Fátinha. Belos mergulhos nas Praias da Costa; Comezainas com o sabor a mar; Noitada a curtir boa música.

- Momentos bonzinhos:

A fila de trânsito para sair da praia; as ressacas; os massacres Rogérianos.

Zambujeira.

- Momentos bons:


O matar de saudades do mar, do murmúrio das ondas ao desfalecerem na praia; os passeios pelas falésias perfumadas por meladas estevas; do pôr-do-sol; da pesca, da gastronomia; dos amigos locais; dos novos amigos.

- Momentos bonzinhos:

Os dias que não fui à pesca; os dias que só fui à praia; as ressacas (que me perseguiram, tenazmente).

De volta



Eis-me de volta, depois de umas belas férias na Costa Vicentina, mais propriamente na Zambujeira do Mar, que apesar de já não ser o paraíso de outrora, ainda mantém a beleza e a magia que me faz lá voltar ano após ano.

Sem me querer tornar aborrecido vou tentar fazer um breve diário do que foram estas férias, até porque se não o fizesse seria crucificado pela alcateia bloguiana.

Deixo aqui breves imagens que, apesar de tudo, permanecem indeléveis nas memórias mais voláteis desses dias claros, de praia e pesca, de comes e bebes, quase sempre na companhia de velhos, mas também de novos amigos.