
Ou: a gente ter canseiras com os outros, não compensa.
A estória que vou contar passou-se há muito tempo, numa terra longínqua, dos mapas ignorada, perdida entre montes, nas faldas do fim-do-mundo.
Era uma terra triste. Como triste era a gente que nela vivia, amargurada pela miséria e pela fome. Oprimida pelo peso herdado de uma vassalagem militante cobrada até à exaustão por quem detinha o poder. Gente que nascia com um pé no berço e outro na cova.
Ora, como em tudo na vida, e nas moedas, existem duas faces, e nem todos viviam com a barriga colada ás costas, curvados pela fome que rapavam. Num altaneiro castelo, entre sedas e brocados, governava um rico e anafado lavrador que dominava com mão de ferro os pobres camponeses. Chamavam-lhe o “Diniz dos Tomates”.Graça que lhe advinha pelo obsessivo desvelo com que cuidava, pelas próprias mãos, de um pé de tomateiras, qual árvore genealógica, legado tesouro de seus ancestrais avós.
Era com um incontrolável carinho que tratava, todas as manhãs, dos seus tomates, e até a castelã D.Belita, sua esposa, não tinha autorização para lhes poder tocar.
Grandes, gordos e luzidios aos primeiros raios da alvorada… era com a felicidade estampada no rosto que os admirava, ainda abotoando as bragas, após a estrumação diária. Uma erva daninha aqui, uma folha menos viçosa ali, tudo era minuciosamente aparado, beliscado, afagado tal qual corpo de moça temporã.
Estes tomates não acabavam os seus dias numa qualquer salada, como seria normal em tomates tão vistosos, não. Morriam de velhice, engelhavam até secar. As sementes cuidadosamente guardadas até voltarem, na próxima época ao fértil canteiro do lavrador.
Naquele ano as privações tinham sido particularmente agravadas. A seca aliada a uma renitente praga de gafanhotos tinham devastado as culturas tornando o já pouco sustento do povo numa miséria sem fim. Grandes fomes e doenças adivinhavam-se no horizonte. E a encapuçada figura da morte de foice em riste rondava o povoado, pronta para a colheita das almas.
Um dia, uma mulher foi bater à porta do castelo pedindo para falar com D.Belita. A mulher do lavrador tinha um coração de ouro, amargurado pelas privações sofridas pelo povo, fruto da escravidão feudal imposta por seu marido, e sempre arranjava maneira de auxiliar os pobres.
D.Belita recebeu a mulher que mais parecia um farrapo andrajoso e sem chama de vida. Tinha acabado de dar à luz três gémeos, que por infortúnio ou castigo de deus, tinham nascido com vida. Sem leite para os amamentar e sem coragem de os esganar, a mulher pedia a esmola e compaixão da castelã. Uns quantos legumes frescos que lhe fizessem brotar o leite adiariam por mais algum tempo o triste fim da sua prole.
A fidalga compadeceu-se da pobre, e sabendo que D.Diniz partira para caçar dirigiu-se à horta a fim de apanhar meia dúzia dos excelsos tomates de seu marido, únicos legumes poupados à canícula instalada.
Acto consumado, e saindo da horta com o regaço cheio, dá D.Belita de caras com o caçador que voltara mais cedo das lides venatórias. Os bichos rareavam, também por culpa da crise.
D.Diniz desconfiado com as andanças da mulher, e olhando-lhe por cima do ombro, adivinhando um assalto ao seu tesouro, pergunta-lhe, já com a voz desfigurada pela ira:
- Que trazeis debaixo do avental, mulher?! E não me digais que são rosas, porque nessa, eu não caio!
D Belita, com a serenidade de quem toda a vida fez o milagre de aturar tal cromo, respondeu-lhe, ao mesmo tempo que desdobrava o avental:
- São nabiças meu Senhor, pró caldo do almoço…
- Nabiças? Só se forem de sequeiro! Respondeu o Lavrador.
E uma atrás de outra, verdes nabiças cobriram os seus pés, levantando uma pequena nuvem de pó na terra queimada pelo sol.
Dizem, despudoradas língua viperinas, que depois do acontecido Diniz dos Tomates perdeu a razão. Matou a mulher cozinhando-a no caldeiro junta com as nabiças e serviu o macabro repasto aos seus mastins.
O castelo virou ruína em pouco tempo. O povo teve a sorte que tem qualquer povo.
Do lavrador não se sabe o seu fim. Houve quem o visse durante algum tempo vagueando pelas serranias, nu, segurando as suas partes podendas entre as mãos, uivando numa língua desconhecida onde só se percebia: - Estes são meus, ninguém mos tira!!!
PS: Aprendam a lição e preparem-se para os tempos difíceis que se avizinham...