05 janeiro 2007

O Milagre das Couves



Ou: a gente ter canseiras com os outros, não compensa.


A estória que vou contar passou-se há muito tempo, numa terra longínqua, dos mapas ignorada, perdida entre montes, nas faldas do fim-do-mundo.

Era uma terra triste. Como triste era a gente que nela vivia, amargurada pela miséria e pela fome. Oprimida pelo peso herdado de uma vassalagem militante cobrada até à exaustão por quem detinha o poder. Gente que nascia com um pé no berço e outro na cova.

Ora, como em tudo na vida, e nas moedas, existem duas faces, e nem todos viviam com a barriga colada ás costas, curvados pela fome que rapavam. Num altaneiro castelo, entre sedas e brocados, governava um rico e anafado lavrador que dominava com mão de ferro os pobres camponeses. Chamavam-lhe o “Diniz dos Tomates”.Graça que lhe advinha pelo obsessivo desvelo com que cuidava, pelas próprias mãos, de um pé de tomateiras, qual árvore genealógica, legado tesouro de seus ancestrais avós.

Era com um incontrolável carinho que tratava, todas as manhãs, dos seus tomates, e até a castelã D.Belita, sua esposa, não tinha autorização para lhes poder tocar.
Grandes, gordos e luzidios aos primeiros raios da alvorada… era com a felicidade estampada no rosto que os admirava, ainda abotoando as bragas, após a estrumação diária. Uma erva daninha aqui, uma folha menos viçosa ali, tudo era minuciosamente aparado, beliscado, afagado tal qual corpo de moça temporã.

Estes tomates não acabavam os seus dias numa qualquer salada, como seria normal em tomates tão vistosos, não. Morriam de velhice, engelhavam até secar. As sementes cuidadosamente guardadas até voltarem, na próxima época ao fértil canteiro do lavrador.

Naquele ano as privações tinham sido particularmente agravadas. A seca aliada a uma renitente praga de gafanhotos tinham devastado as culturas tornando o já pouco sustento do povo numa miséria sem fim. Grandes fomes e doenças adivinhavam-se no horizonte. E a encapuçada figura da morte de foice em riste rondava o povoado, pronta para a colheita das almas.

Um dia, uma mulher foi bater à porta do castelo pedindo para falar com D.Belita. A mulher do lavrador tinha um coração de ouro, amargurado pelas privações sofridas pelo povo, fruto da escravidão feudal imposta por seu marido, e sempre arranjava maneira de auxiliar os pobres.

D.Belita recebeu a mulher que mais parecia um farrapo andrajoso e sem chama de vida. Tinha acabado de dar à luz três gémeos, que por infortúnio ou castigo de deus, tinham nascido com vida. Sem leite para os amamentar e sem coragem de os esganar, a mulher pedia a esmola e compaixão da castelã. Uns quantos legumes frescos que lhe fizessem brotar o leite adiariam por mais algum tempo o triste fim da sua prole.

A fidalga compadeceu-se da pobre, e sabendo que D.Diniz partira para caçar dirigiu-se à horta a fim de apanhar meia dúzia dos excelsos tomates de seu marido, únicos legumes poupados à canícula instalada.

Acto consumado, e saindo da horta com o regaço cheio, dá D.Belita de caras com o caçador que voltara mais cedo das lides venatórias. Os bichos rareavam, também por culpa da crise.
D.Diniz desconfiado com as andanças da mulher, e olhando-lhe por cima do ombro, adivinhando um assalto ao seu tesouro, pergunta-lhe, já com a voz desfigurada pela ira:
- Que trazeis debaixo do avental, mulher?! E não me digais que são rosas, porque nessa, eu não caio!
D Belita, com a serenidade de quem toda a vida fez o milagre de aturar tal cromo, respondeu-lhe, ao mesmo tempo que desdobrava o avental:
- São nabiças meu Senhor, pró caldo do almoço…
- Nabiças? Só se forem de sequeiro! Respondeu o Lavrador.
E uma atrás de outra, verdes nabiças cobriram os seus pés, levantando uma pequena nuvem de pó na terra queimada pelo sol.

Dizem, despudoradas língua viperinas, que depois do acontecido Diniz dos Tomates perdeu a razão. Matou a mulher cozinhando-a no caldeiro junta com as nabiças e serviu o macabro repasto aos seus mastins.

O castelo virou ruína em pouco tempo. O povo teve a sorte que tem qualquer povo.

Do lavrador não se sabe o seu fim. Houve quem o visse durante algum tempo vagueando pelas serranias, nu, segurando as suas partes podendas entre as mãos, uivando numa língua desconhecida onde só se percebia: - Estes são meus, ninguém mos tira!!!


PS: Aprendam a lição e preparem-se para os tempos difíceis que se avizinham...

12 comentários:

Rogério Charraz disse...

Está explicado o longo silêncio... estavas a cozinhar! (que vontade tão grande que me deu agora de soltar uma piada super-brejeira!Mas resisti...)

Quanto aos maus tempos, que nos vão valendo as boas amizades, amigo!

Uma vida qualquer disse...

E eu a pensar que esses tempos já me tinham arrombado a porta!
Besos

Anónimo disse...

Aqui temos uma antevisão péssimista/realista, mas também curiosa, de tempos próximos que se adivinham cada vez mais difíceis!... Uma espécie de lenda das rosas com tomates de "estimação"...
Esperemos que a nossa capacidade de enfrentar e ultrapassar as dificuldades com um sorriso nos lábios, prevaleça em relação aos espinhos que vão aparecendo pelo caminho... E como já não se fazem milagres com rosas, fiquemo-nos com os tomates... sem espinhos!
Um abraço,
Zé Lopes

Anónimo disse...

É realmente é preciso ter tomates,para enfrentar o dia a dia.
Um abraço Cachaço

Micas disse...

Adorei este conto ou esta quase sátira dos tempos que vão correndo ;D)
Uma delicia este conto.
Beijinho e bom fim de semna

Rogério Charraz disse...

Diria q`houve um milagre aqui...

Anónimo disse...

Afinal valeu a pena o longo silêncio, mas para mim o final da história poderia ser outro, e que tal:

O Lavrador quando viu as nabiças cairem a seus pés, olhou D. Belita bem nos olhos e retorquiu:
A, afinal tu também tinhas um hobby,como conseguiste esconder-mo durante tanto tempo, é que me deixa perplexo. E que tal se jantassemos hoje nabiças de tomatada, e já agora convida essa Senhora que vi lá fora para jantar connosco.
E depois desse dia, muitas mais vezes jantaram nabiças de tomatada e foram felizes para sempre....

Temos que acreditar que o futuro poderá ser se não tão bom, ainda melhor que o presente.

Temos de acreditar que ainda há pessoas capazes de olharem não só para o seu umbigo, mas também para o do próximo.

Beijocas

Isabel Correia

zmsantos disse...

Minha querida amiga fico deveras contente pelo teu comentário ao "Milagre".O que aqui se escreve, ou diz,não é lei e qualquer um poderá opiniar e propôr novas ideias. Um fim diferente, demonstra a tua visão em relação aos tempos que aí vêm. Uma visão mais optimista, mais solidária, mais humana mas também com muito humor, tão ao encontro da tua personalidade de excelente ser humano com que nos habituaste, no meu caso, há já quase 30 anos de amizade.
Eu continuo a pensar que ninguem vai partilhar os seus tomates com os mais desfavorecidos, pelo menos aqueles que detêm o poder, quer seja ele económico, político ou religioso enquanto as consciências não perderem a avareza de bons sentimentos instalada. Mas tenho esperança, tambem, de estar completamente enganado.

Já agora, e porque notei que te "desenrrascas" muito bem com as letras, queria deixar-te um desafio: Qua tal se a minha amiga participasse com alguns escritos aqui (ou noutro lugar) no "Perdigão" ?

Beijos para ti e pra restante família.

Anónimo disse...

Eu tenho consciência que o teu final da história é o único possível nos tempos que correm, mas como tenho um sonho desde há muitos anos, que é o de tentar preservar até ao fim da minha vida um pouco de "inocência de criança", que para mim, é uma das coisas mais puras que hoje em dia tal como tudo o resto que vale a pena conservar mais vai escasseando por aí, quis acrecentar um final tipo "conto de fadas".
E claro que escrever e ler o teu blogg é uma das formas de mantermos contacto uma vez que as voltas e canseiras das nossas vidas não nos permitem, tantas vezes como gostariamos, faze-lo de outra forma.

Beijocas para ti e para a Fátima

Isabel Correia

Anónimo disse...

Aceitar um desafio, atenção que não é um desafio qualquer, é uma tarefa dificil derivado à responsabilidade que é escrever num Blogg de Alguém com livros publicados, mas como coragem não me falta, e como pelos vistos estamos numa de contos/lendas/verdades, aqui vai:

"Aceitar um Desafio"

Num país longinquo, há muitos, muitos anos, havia crianças não desejadas que nasciam porque as leis não autorizavam que o contrário acontecesse. Havia crianças que nasciam sabendo logo que começavam a respirar qua a vida delas iria ser tragicamente complicada. Muitas delas morriam de tanta tareia que levavam, outras eram abandonadas e dificilmente conseguiam arranjar alguém que as amasse, passando os seus dias em instituições onde muitas vezes eram maltratadas, espancadas e até violadas.
Depois havia aqueles que conseguiam arranjar algum dinheiro e que depois de muito pensarem não deixavam essas criança nascerem, sujeitando-se no entanto a por em perigo a sua vida, porque os locais escondidos onde evitavam o nascimento dessas crianças, não tinham condições.
Um dia as pessoas que mandavam nesse país lembraram-se de perguntar ao povo se não seria melhor que fosse permitido que essas crianças não desejadas não nascessem e assim fizeram.
Só que nesse pais havia muitas pessoas hipócritas, pessoas com muito poder que embora agissem como todas as outras diziam que era
pecado, que era uma coisa muito má, e como tinham poder conseguiam influenciar oe menos fortes.
Assim, no dia em que o povo foi responder a quem mandava nesse país os fortes influenciaram os fracos e tudo ficou na mesma.
No entanto quem mandava nessa terra continuava a ver mulheres a morrer e crianças a serem maltratadas, espancadas e violadas, assim mais uma vez se dirigiram ao povo e disseram:
Vamos lançar-vos um desafio
Vamos novamente perguntar-vos o que vocês acham desta estúpida proibição, e assim mais uma vez marcaram uma data para o povo responder a esta questão.
Só que no dia marcado, e como por milagre,o povo foi todo responder á pergunta feita por quem governava aquele pais. Os dorminhocos sairam da cama,os preguiçosos esqueceram-se que eram preguiçosos, e todos foram responder à grande pergunta, assim a partir desse dia mais nenhuma mulher arriscou a sua vida para não ter filhos desejados e todas as crianças que nasciam eram bem tratadas, amadas e felizes.

P.S. Para mim as histórias tem todas de ter um final feliz.

Isabel Correia

zmsantos disse...

Belo pela oportunidade, bem desenvolvido numa perspectiva que faz de um assunto tão sério não ser um bicho de sete cabeças, porém sem lhe retirar todo o conteúdo humano inerente.
Os finais felizes são cada vez mais necessários nesta selva de vida que é a nossa.

Espero que seja o início de muitos escritos, Isabel. Não me surprende a tua sensibilidade, por seres o ser humano, magnífico que és.

Beijinho.

Micas disse...

Passei para te desejar uma boa semana :)
Beijinho