
Sr. Perdigão, Cativar é criar Laços. Criei laços com este blog. Com as pessoas que não conheço mas que já fazem parte dos meus pensamentos. Criei laços consigo, com Zé Lopes, com o Rogério, com o Sérgio, com a Fátima...
A raposa disse ao Principezinho que criar laços é cativar e explicou que é eu vir aqui e vocês estarem cá e encontrarmo-nos. A raposa disse que assim se criam laços e nos cativamos. Eu gosto de criar laços, mas não gosto, nem tenho muito jeito para marcar encontros... noto que deixo cativar-me mas que (quase) ninguém me cativa a mim.
Acho que a raposa não está totalmente certa. Criei laços consigo e com os seus amigos, mas (e tenho quase a certeza) nenhum de vocês criou laços comigo. Apesar de vir aqui poucas vezes e passar muito tempo sem dizer nada, não deixo de pensar em si e nos seus amigos. Inclusive, volta e meia venho aqui ver a conversa da treta que vocês desenvolvem. Até já acho piada às vossas conversas (às vezes tão lamechinhas, tão beijinho para cá e beijinho para lá, tão olá tudo bem)... Parecem miúdos a trocar postais nas férias do Verão...
Pois, pois, pois! Mas apesar da minha ausência e das vossas pieguices e tretas, a raposa não estava totalmente certa porque criei laços convosco, vocês cativaram-me, mas eu não vos cativei. Aliás, imagino mesmo que vos irrito e tenho noção que não é nada fácil deixarem-se cativar por mim.
Mas isso é bom. Assim não há confusões. Assim não conseguem iludir-se e fazer de mim mais um personagem à vossa própria maneira e vontade. Assim não se apropriam de mim e isso é bom, porque podem ter a certeza absoluta que devo ser das poucas pessoas que o “é” e verdadeiramente e existe, independentemente da ideia que podem ter ou querer ter acerca de mim. Isso é mesmo muito bom! Talvez poucas pessoas percebam que quando nos cativamos é de forma oportunista e enganosa – só gostamos de quem gosta de nós e nos diz o que queremos e faz o queremos e corresponde ao que queremos, sendo este o tipo de tangas que procuramos nos outros e que nos aproxima dos outros, pelo que rejeitamos e não gostamos de quem não nos enche o ego à nossa maneira. A propósito se tiverem um tempinho vão procurar saber o que é e como se constrói o ego (de falsidades e de imagens preconcebidas e estereotipadas). Ainda gostava de conhecer alguém que realmente gostasse de mim! Desatava rir! Salvo erro um destes dias contei-lhe que tenho família, filhos e tudo. É uma família que estimo acima de tudo e de todos, mas dá-me uma vontade de rir... Se soubesse a dificuldade que têm em gostar de mim! Rio-me porque sei que gostam e de forma verdadeira, mas a minha frontalidade e clareza de ideias e de existência confunde-os tanto.... Por exemplo, não conseguem mentir-me, não conseguem bajular-me, não conseguem dizer-me determinada coisa sem que eu perceba que não é aquilo que estão a dizer mas o que queriam ter para dizer, etc., etc.... Se há coisa que não suporto é que me andem a tapar o sol com a peneira e à volta fique aquela grande claridade. É por isso que ainda estou para conhecer alguém que goste realmente de mim, porque os que gostam é um pouco tipo água tónica e têm sempre muitas queixas e motivos de sobra para se queixarem de mim. Se alguém algum dia gostasse de mim verdadeiramente é porque eu seria exactamente quem sou... o que é complicado, não só porque quem sou não faz de conta, nem faz o frete a ninguém, como também nem sempre sou quem sou, mas o que de momento preciso que seja – sou uma pessoa muito prática e o espaço é mais verdadeiro para se viver, do que o tempo.
Agradeço, hoje, em particular porque estive e espero que isso não vos cative, porque também não vos dou motivos – cativar não requer motivos, mas somente que nos encontremos e sejamos.
Naia Casto