26 abril 2007

Os laços (Górdios) de Naia Castro


Sr. Perdigão, Cativar é criar Laços. Criei laços com este blog. Com as pessoas que não conheço mas que já fazem parte dos meus pensamentos. Criei laços consigo, com Zé Lopes, com o Rogério, com o Sérgio, com a Fátima...

A raposa disse ao Principezinho que criar laços é cativar e explicou que é eu vir aqui e vocês estarem cá e encontrarmo-nos. A raposa disse que assim se criam laços e nos cativamos. Eu gosto de criar laços, mas não gosto, nem tenho muito jeito para marcar encontros... noto que deixo cativar-me mas que (quase) ninguém me cativa a mim.

Acho que a raposa não está totalmente certa. Criei laços consigo e com os seus amigos, mas (e tenho quase a certeza) nenhum de vocês criou laços comigo. Apesar de vir aqui poucas vezes e passar muito tempo sem dizer nada, não deixo de pensar em si e nos seus amigos. Inclusive, volta e meia venho aqui ver a conversa da treta que vocês desenvolvem. Até já acho piada às vossas conversas (às vezes tão lamechinhas, tão beijinho para cá e beijinho para lá, tão olá tudo bem)... Parecem miúdos a trocar postais nas férias do Verão...


Pois, pois, pois! Mas apesar da minha ausência e das vossas pieguices e tretas, a raposa não estava totalmente certa porque criei laços convosco, vocês cativaram-me, mas eu não vos cativei. Aliás, imagino mesmo que vos irrito e tenho noção que não é nada fácil deixarem-se cativar por mim.

Mas isso é bom. Assim não há confusões. Assim não conseguem iludir-se e fazer de mim mais um personagem à vossa própria maneira e vontade. Assim não se apropriam de mim e isso é bom, porque podem ter a certeza absoluta que devo ser das poucas pessoas que o “é” e verdadeiramente e existe, independentemente da ideia que podem ter ou querer ter acerca de mim. Isso é mesmo muito bom! Talvez poucas pessoas percebam que quando nos cativamos é de forma oportunista e enganosa – só gostamos de quem gosta de nós e nos diz o que queremos e faz o queremos e corresponde ao que queremos, sendo este o tipo de tangas que procuramos nos outros e que nos aproxima dos outros, pelo que rejeitamos e não gostamos de quem não nos enche o ego à nossa maneira. A propósito se tiverem um tempinho vão procurar saber o que é e como se constrói o ego (de falsidades e de imagens preconcebidas e estereotipadas). Ainda gostava de conhecer alguém que realmente gostasse de mim! Desatava rir! Salvo erro um destes dias contei-lhe que tenho família, filhos e tudo. É uma família que estimo acima de tudo e de todos, mas dá-me uma vontade de rir... Se soubesse a dificuldade que têm em gostar de mim! Rio-me porque sei que gostam e de forma verdadeira, mas a minha frontalidade e clareza de ideias e de existência confunde-os tanto.... Por exemplo, não conseguem mentir-me, não conseguem bajular-me, não conseguem dizer-me determinada coisa sem que eu perceba que não é aquilo que estão a dizer mas o que queriam ter para dizer, etc., etc.... Se há coisa que não suporto é que me andem a tapar o sol com a peneira e à volta fique aquela grande claridade. É por isso que ainda estou para conhecer alguém que goste realmente de mim, porque os que gostam é um pouco tipo água tónica e têm sempre muitas queixas e motivos de sobra para se queixarem de mim. Se alguém algum dia gostasse de mim verdadeiramente é porque eu seria exactamente quem sou... o que é complicado, não só porque quem sou não faz de conta, nem faz o frete a ninguém, como também nem sempre sou quem sou, mas o que de momento preciso que seja – sou uma pessoa muito prática e o espaço é mais verdadeiro para se viver, do que o tempo.


Agradeço, hoje, em particular porque estive e espero que isso não vos cative, porque também não vos dou motivos – cativar não requer motivos, mas somente que nos encontremos e sejamos.

Naia Casto





7 comentários:

Anónimo disse...

Ilustre Perdigão, de quando em vez, como quem vai à janela num dia de chuva, olho a vossa Praça e sinto uma golfada de sons quase naturais.
Quanto a Naia Castro, há algo que me faz lembrar um poeta vadio, na Linha de Sintra, que assinava Abílio de Castro. Mas depois disso já passou quase um quarto de século. Por isso!!! Mas, meu Deus... Só agora me apercebo que Naia também é Castro! E que, como Abílio, também ousa dizer coisas do género "Se alguém algum dia gostasse de mim verdadeiramente é porque eu seria exactamente quem sou... o que é complicado, não só porque quem sou não faz de conta, nem faz o frete a ninguém, como também nem sempre sou quem sou".

Castro... Que estranha e oculta relação haverá, se houver, entre Abílio e Naia? Já agora, será possível saber-se algo mais de Naia?

Sem Medo!

Anónimo disse...

N.C.:
Apraz-me registar que, ao criar o hábito de visitar este blog, criou alguns laços com as pessoas que nele navegam... Não se preocupe, é compreensível e humano!
Mais difícil de compreender é a razão (ou as razões) que levam uma pessoa com a sua bagagem cultural, clareza de ideias e facilidade de argumentação, vir aqui perder o seu precioso tempo para esgrimir ideias com pessoas tão colegiais e limitadas, que pouco mais fazem do que manter alguma conversa da treta e trocar cumprimentos lamechas!
Acredite ou não, ao contrário do que possa imaginar, o/a N.C. também nos cativa:
1. Porque, como muito bem disse, cativar não requer motivos.
2. Sinceramente não me parece que seja o tipo de pessoas que, apesar de ocultar a sua identidade, pretenda aproximar-se dos outros de forma oportunista ou enganosa.
3. Porque, ao imaginar que nos irrita, está completamente enganado e até lhe posso confessar que nos dá um certo gozo ler os seus escritos, sempre ricos de conteúdo e diferentes da pasmaceira habitual.
Por tudo isto, pela sua firmeza nas convicções e até pelo seu mau feitio... Mesmo que não queira, o/a senhor/a corre o risco de nos cativar!
Com os melhores cumprimentos,

Zé Lopes

Anónimo disse...

Sr Perdigão, a si também gostava de ouvir. Há muito que não nos desentendemos. Agora é uma boa altura para nos desentendermos. Passou o 25 de Abril, passou o 1º de Maio e tenho visto muitos lírios no campo - claro que eu vejo apenas lírios... não esvoaçam, não são livres, nem presos, nem Speilberg sabe que existem... Um à parte – a flor mais indicada para alucinações é a vulgaris dita Bela Dona. Bem... a brincar e a sério faz um ano coisa e tal que passei por este blog, com um nome curioso e deparei-me logo com algumas contradições e confusões. (A dos lírios já falámos q.b.) Perdigão Perdeu a Pena??!!! Mas o Perdigão teve uma prosa no Mar de Memórias... como há muito não via. A espontaneidade e autenticidade com que esgrime os seus lírios e memórias à Spielberg cativaram-me. Vivemos uma época muito pobre e muito podre de novos valores literários e principalmente de ideias e concepções. Lídia Jorge, Augustina, Jorge de Andrade, entre tantos outros digníssimos escritores, fizeram e cumpriram o seu tempo e hoje, que temos? A Pseudo-Best Seller plagiadora de histerismos norte-americanos Margarida Rebelo Pinto? Um prémio mais político e lobista que o Nobel vergonhoso que nos foi dado? Antes o dessem a Alice Vieira que nos representaria muito melhor. Como se admite um país com uma das maiores e melhores literaturas do mundo, das mais ricas e sendo o que mais e melhor produzimos desde há séculos, desde o cancioneiro, desde Gil Vicente, Renascimento, Romantismo, contemporaneidade.... um país que tem génios e obras primas da litratura em todos os tempos e pelo menos de 10 em 10 anos, um país bem retratado em poemas e prosas e dá-se um Nobel a JS???!!!! Antes a Alice Vieira que nos fala da história e de uma forma bastante curiosa! Antes a Lobo Antunes que para além de realmente ter inovado estrutural e tecnicamente a prosa, fala-nos das causas deste Portugal pós colonialista e salazarista, deste Portugal que a partir da década de noventa tentamos mudar... Bem, isto tudo porque afinal Perdigão não perdeu a pena. Pelo contrário ele sabe muito bem da pena e do tinteiro e eu bem tento pica-lo e fazê-lo pôr cá fora o que tem lá dentro, mesmo com aquelas confusões conceptuais e com aquele sentimento puro e ingénuo de quem gosta e ama porque gosta e ama e ponto final. Mas (acho) (já percebi) que Perdigão tem duas grand(érrima)s paixões e como não quer saber de guerras... é dos poucos que se dá entre Gregos e Troianos. Sr Perdigão é tão pouco egoísta! Continuarei a provoca-lo para que escreva (Está a surpreender-me o Zé Lopes – ou muito me engano ou também tem lá o bichinho da seda....Precisa é de soltar, de deixar aquelas frases formalíssimas de quem anda sempre fardado de fato e gravata). Continuarei a provocar-vos porque não há nada mais nobre que ter uma missão. Ser escritor, professor ou médico deveria ser per si só uma missão – são as funções mais importantes que a humanidade desenvolveu na sua rede de representatividades do colectivo e da memória. São os verdadeiros guardiões e feiticeiros da humanidade – professores, médicos e escritores – bem hajam! Percebem agora porque estou aqui? Porque “vocês” têem autenticidade e pureza no sentir e quanto mais conversa da treta, melhor se sentem , mas menos pensam, menos escrevem, mais confusões fazem (O Tubo de Escabe é um perigo de confusões conceptuais....) e quanto mais isto existir e mais disto transmitirem aos vossos pupilos (até mesmo na música) mais riscos corremos de tornar a ter Saramagos e Rebelos Pintos como cogumelos – proliferam e comem-se todos quando aparecem, mas não têem qualquer valor nutricional numa refeição e, acabadas as chuvas já ninguém se lembra deles – e há mais – há os tóxicos....

Espero por mares com e sem memórias – ao contrário do diz o Z.L. devo ter menos formação que vocês todos juntos a nossa “diferença” está na arrumação das coisas e na aplicação dos sentidos – “vocês” têem várias peças na mesma gaveta e no mesmo armário, pelo que quando querem uma, têem que tirar todas as outras e desarrumar tudo para o chão. Têem coisas a mais e superfulas. Têem pouca concentração e focalização e misturam sentidos com conceitos e forçam as palavras nos seus significados. Eu, por exemplo, olho muito e penso pouco. Cheiro muito e penso pouco. Ouço muito e penso pouco, ou, pelo menos faço cada uma destas coisas no seu lugar e com os mecanismos próprios para ter a melhor certeza possível do “quem é quem”. Por exemplo se algum dia tentarem usar o olfacto da forma adequada façam-no como os leões. Projectem o lábio superior de modo a permitirem maior abertura das narinas e inspirem o ar até sentirem que chega cá atrás entre o céu da boca e a garganta. Irão identificar duas coisas fundamentais – a temperatura e o odor do local em que estão – só depois deverão (se necessário!) passar a associações e a arrumar essa projecção na memória – a memória processa e associa local/temperatura/cheiro e é assim que os leões caçam. Tentem apenas ouvir. Fechem os olhos e exercitem apenas a audição. Tentem ouvir o que está vossa volta e identificar (de olhos fechados) a velocidade do vento, a direcção que tem quando vos passa pelo rosto, se entre por uma janela e se sem sentem que circunda a vossa pele..... Não façam associações desnecessárias, não forcem as “coisas” e as palavras àquilo que não são, só porque gostariam que fossem. Vejam o Sem medo... já confunde os confunde os Castros todos. Acha que Naia é mulher e é namorada de Abílio e que a conheceu....Grande misticismo o dele! (Mistérios da Estrada de Sintra? II?) Antes pelo contrário tentem perceber porquê que têem essa necessidade. No porquê estará a vossa autenticidade e a resposta que procuram...Não entrem em conexões assim só porque de repente a cabeça diz que sente isto e aquilo ... o que temos na cabeça é tudo treta... A única verdade que tivemos foi até começarmos a identificar as palavras da nossa mãe “não faz isto, não diz aquilo, não comas assim, agradece ao senhor, diz adeus”....

Bem hoje estou duma benevolência.... e duma paciência!!!! E vocês também se tiverem lido até ao fim. (mas eu agradeço, claro, sempre!)
Naia Casto

Rogério Charraz disse...

Caro Naia Castro,

E então o facto de lhe respondermos sempre (ou quase) não é uma prova inequívoca de que criámos laços consigo?!

Se tem dúvidas repare nisto, entrei no blog do Perdigão, como faço todos os dias, e reparei no seu comentário. Li-o transversalmente, e como neste momento só tenho acesso à Internet no meu trabalho, achei por bem imprimir e ler nem casa com mais atenção. E estive todos estes dias à espera de ter tempo e computador para lhe poder responder! Não me diga que não se sente lisonjeado?!

A grande diferença entre nós, é que enquanto vamos fazendo tudo às claras, o meu amigo mantém-se envolto numa bruma nebulosa, adensando o mistério. Não encare este comentário como uma crítica, porque ambos sabemos que isso só ajuda a manter o diálogo vivo e interessante, e eu até acho uma certa piada a essa sua máscara. E aos poucos lá vai destapando o véu, já fiquei a saber que tem “família, filhos e tudo”. E quem sabe um pouco de sedução, sabe que não se pode revelar logo tudo!

Ah, e para que fique claro, a mim não me irrita nada! Até achei piada à comparação com “miúdos a trocar postais nas férias do Verão”. Mais que achar piada, senti-me lisonjeado por não ter perdido a capacidade de parecer um miúdo, apesar de estar quase com trinta anos! E sabe que mais, eu até sou muito pouco lamechas, e fujo do elogio fácil como o diabo da cruz, mas se algum dia chegar a conhecer o Sr. Perdigão pessoalmente (e o Zé Lopes, e a Fátima, e o Cachaço, e o resto da trupe) vai ver quão difícil é ficar indiferente ou manter um aparente distanciamento. Acredite em mim, esta gente tem capacidade de gostar que é irresistível…

Agora, dei uma sonora gargalhada quando escreveu “Assim não conseguem iludir-se e fazer de mim mais um personagem à vossa própria maneira e vontade.” Então afinal Naia Castro não quer ser um personagem?
Mas continua, “devo ser das poucas pessoas que o «é» verdadeiramente e existe”. Então Naia Castro tem um corpo físico? É real? Ainda bem, pode ser que daqui para a frente saibamos mais de si, e não, não quero saber o seu género sexual, nem as suas medidas, apenas e só quem é, o que faz, o que o faz sorrir, chorar, vibrar… Só depois de o saber poderei dizer se gosto ou não de si, para já parece-me óbvio que simpatizo com o personagem!

Concordo consigo no que ao ego diz respeito. Aliás, não sei se vem a propósito, mas uma vez assisti a um casamento evangélico e na sua dissertação o pastor (que funciona para estas igrejas como o padre na igreja católica) disse uma coisa aos noivos que nunca esqueci (é engraçado que nunca registei nada dito por nenhum padre, e assisti a dezenas de casamentos católicos). Dizia ele que os noivos deviam ter a consciência que teriam que amar o outro por aquilo que ele(a) é, e não querer que o outro fosse aquilo que desejavam e ansiavam. E essa é a parte mais difícil nas relações humanas, sejam de que tipo forem, nós conseguirmos ver o outro em toda a sua plenitude e não como uma projecção dos nossos desejos.

De resto todos nos vamos adaptando às circunstâncias, e vamos cedendo aqui e ali. Sabe que também não sou adepto da frontalidade “pura e dura”, porque muitas vezes se confunde com a insensatez e com a insensibilidade. E amar alguém é também saber, em determinadas circunstâncias, moldarmo-nos aos seus defeitos e virtudes. Como em tudo na vida, o mais difícil é saber encontrar o ponto de equilíbrio entre a essência e a cedência.

Como vê, cativados ou não, continuamos a encontrarmo-nos…

Um abraço,

Rogério Charraz

PS: Escrevi isto antes de ler o seu último comentário. Que terei que voltar a imprimir!

Anónimo disse...

Apenas para dizer a Naia que os Castros são inconfundíveis e que nos falam do tempo em que os homens viviam sem tempo e sem história e que existem no espaço e que Sem Medo não "Acha que Naia é mulher e é namorada de Abílio e que a conheceu....". Sem Medo não acha, nem perde, coisa nenhuma! As coisas são como são e Naia pode até ser sem sexo, como nas línguas maiores, ser um substantivo neutro! Naia pode ser quem for e dentro dessas possibilidades não se pode excluir, pelo seu secretismo e mistério (III), que seja o próprio Abílio de Castro ou seu descendente!
Apenas isso, não mais!

OLA!

Anónimo disse...

(NOTA - RODAPÉ - Ui ui ui ui que qulquer dia também ando a trocar recados lamechas e postais c/ estes miudos - no bom sentido - Claro!)

NaiaC

Anónimo disse...

É um prazer,ler,este duelo de palavras,mas será que N.C sabe o que é ter amigos?
Cachaço