04 setembro 2006

Mindelo

São cinco horas da tarde. Sinto-me como um sorvete, que alguem, por incuria, se esqueceu de guardar no frigorífico. A pouca roupa que trago cola-se-me como uma segunda pele. Sucessivos goles de água tentam, em vão, repôr a que, constantemente perco em rios que me percorrem o corpo. Como é que esta gente aguenta tanto calôr? Interrogo-me ao mesmo tempo que pergunto à Fátima se falta muito para chegar-mos à tal loja de artesanato “maravilha” onde tudo é autêntico e a preços de “bexiga de camelo”.
- É já no outro lado da rua. Vamos atravessar!
Entrámos. Lá dentro deparo com uma Meca de artigos espalhados, amontoados sem critério aparente, pelo menos para mim, vigiados por dois pouco dissimulados berberes.
Ao menos têm ventoinhas, e logo estaciono o meu afogueado corpo por debaixo de uma delas.
Ao balcão estão duas raparigas. Uma delas, nitidamente, é crioula. Olha para mim de forma complacente com o meu estado, e até lhe noto uma pontinha de piedade. Isso é o suficiente para me fazer mexer e ir ao encontro da Fátima, já perdida entre colares, pulseiras e panos, sei lá de que proveniências. De Cabo Verde não são. Talvez senegalesas ou do Mali a avaliar por algumas estatuetas e máscaras em madeiras que, de todo, não criaram as suas raízes nestas sequiosas terras.
O artesanato de Cabo Verde resume-se a alguns artefactos feitos em casca de tartaruga ou casca de côco, e tem o seu expoente nos produtos da transformação da cana do açúcar: o grogue, o ponche, o mel de cana. Os licores de fruta, de tangerina, de laranja ou de manga também são muitos apreciados, assim como as compotas ou dôces feitos, ainda, à maneira antiga e sem conservantes. Pequenos brinquedos feitos de folha de lata das embalagens também se vêem, mas pouco, assim como as tapeçarias de lã, muito caras e quase exclusivas de alguns ateliers.

Agora já mais refrescado, começo a sondar, de uma forma quase cirurgica a mercadoria exposta, e até a menos exposta, procurando por detrás de ‘bonecadas’, por baixo de prateleiras, rente ao chão, algo que me tocasse, que eu achasse que valia a pena trazer, e aí pensava nos amigos em Portugal e na forma de como lhes passar um pouco do testemunho da minha viagem.

Não dei pelo tempo passar, e quando me apercebi, o balcão da loja encontrava-se meio cheio de embrulhos, feitos em papel pardo. Do meio dos embrulhos saiu a vóz da Fátima, fraca e susurrante, depois de atravessar tantos obstáculos:
- Então, já escolheste as tuas prendas? Trá-las para eu fazer negócio, aqui com a amiga Fátima! Chamava-se Fátima, a crioula que há pouco me olhava piedosamente.
Eu juntei algumas peças que achei interessantes às do balcão. O negócio fez-se, entre propostas e contra-propostas, teios e regateios mais parecendo uma reunião da concertação social. Por fim, acertado o preço, e na altura de pagar, eu em jeito de desabafo e com esta mania parva de brincar com tudo, atiro para o ar:
- Bem, com o que aqui gastamos, não sobrou nenhum dinheiro para o jantar!
A Fátima, que por acaso era crioula, com a voz um pouco embargada pela timidez, mas onde era por demais evidente a sinceridade, disse-nos, olhando-nos nos olhos:
- Isso não pode ser. São meus convidados a jantar em minha casa!
Olhei para a Fátima, que por acaso não era crioula, e revi na sua cara a minha cara. Naquele instante tinhamos percebido o significado da palavra morabeza.

2 comentários:

Micas disse...

Seja bem vindo :))
Como é que já perdi tantos posts e tenho vindo cá sempre?? bem, vou ler as crónicas de viagem e depois regresso :)

Beijinho e boa semana

Anónimo disse...
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