31 agosto 2007

Diário II - A primeira luta







Como já devem ter percebido, o prazer que tiro do mar e das suas praias resume-se, quase exclusivamente, ás constantes idas à pesca.
Quero aqui dizer que não sou um assíduo e experimentado pescador. É um gosto que me foi transmitido pelo meu pai e que, normalmente, só acontece quando estou em férias.
Encaro a pesca como um exercício de descontracção e de comunhão entre o espírito e a natureza dos locais onde normalmente pesco. Não me vejo a pescar no meio de uma multidão (se não estiver só, não pesco) ou num local onde o mar não me conte uma estória. Por isso, se voltar para casa de saco vazio não é isso que me vai impedir de voltar no dia seguinte. É claro que se o mar for generoso e me presentear com um belo Sargo ou Robalo, o peito, além de inchado com a maresia que a fresca brisa me trouxe, vem repleto de vaidade e de dobrado contentamento, já a pensar em grelhas, carvão e vinho tinto.

Assim aconteceu no primeiro dia em que pesquei nestas férias:

Tínhamos apanhado a tiagem (minhocas que vivem enterradas na areia, normalmente debaixo das rochas, e que são o meu isco preferido) na manhã desse dia.
Depois do almoço na Ti Vitória combinámos, eu e a Fátima, inaugurarmos oficialmente a época da pesca, e fomos para a laginha, que é um pesqueiro de fácil acesso, onde se está à vontade e sem cuidados de maior, próprio para o acostumar dos músculos aos mais difíceis pesqueiros.
Depois de armado o equipamento faço o lançamento para o mar. Confesso que estava um pouco ansioso, seria que este ano era ano de encher o frigorífico?
Passaram-se uns bons quinze minutos e nada. Não. O peixe não picava. Vamos acreditar que o cardume da abundância estaria a chegar a qualquer momento, e que mais tarde ou mais cedo acabaria por sacar uma escama.
Estava perdido nestas minhas conjecturas quando de repente, a cana vergou a ponta, num inusitado esticão em direcção à água, como se, ela própria, fosse criatura de mar, e que em cima daquele rochedo agonizasse, fora do seu meio.
Eu começo a recuperar a linha, e pela luta que o peixe estava a dar, percebi que era um dos grandes que tinha ferrado. Ao fim de algum tempo começo a ver a silhueta dele, brilhando na superfície das águas claras. Era uma dourada. Grande, como nunca tinha apanhado nenhuma. Era o que na gíria se chama uma tábua. Devia de ter à volta de 3 quilos. A adrenalina corria-me à solta nas veias fazendo-me tremer de excitação. Já só o queria ver pendurado na linha, a subir, vencendo o espaço que o separava de mim.
Até que, no momento em que a sua cabeça saiu fora da água, desferiu um desesperado golpe, arqueou o corpo, e como um silvo de chicote a linha partiu libertando o meu breve prisioneiro. A luta tinha chegado ao fim e o derrotado era eu que incrédulo olhava a linha abandonada ao vento, na ponta da cana.

1 comentário:

Rogério Charraz disse...

"Não me vejo a pescar no meio de uma multidão (se não estiver só, não pesco)"

Mesmo assim, prefiro esta desculpa à do "tu não ias ter paciência..." Eu acho que o problema está mas histórias que o mar te conta, dão-te sono...