31 agosto 2007

Diário III - O caçador de peixes.















Ainda meio desapontado pelo anterior desfecho vejo descer para o pesqueiro onde me encontrava um grupo de rapazes e de raparigas caminhando alegremente, falésia abaixo.
Ao chegarem junto de mim, um deles, talvez o mais velho, saúda-me dando as boas tardes. E num sotaque que percebi ser daquelas paragens, perguntou-me:
- Então amigo, isso tá a dar? Já apanhou alguma coisa?
Eu de semblante carregado respondi-lhe que não. Que tinha deixado fugir uma dourada, das boas, ao que ele retorquiu, até com um pouco de gabarolice:
- Olhe, eu vou caçar o meu jantarinho!
E começou a vestir o fato de mergulho. Armou a espingarda e meteu-se dentro de água, desaparecendo por entre as ondas.
- És mesmo convencido, disse eu comigo.
Continuei na minha pesca, mas não senti mais sinais de peixe, e ao fim de quase uma hora já me preparava para arrumar a tralha quando reparei que o rapaz voltava para terra. Ao longe dir-se-ia que um pequeno Poseidon, com o seu tridente na mão, vinha em peregrinação, carregado de tesouros do seu reino prestar culto a alguma terrena deusa, pois do seu cinto pendiam, brilhantes de vida uma quantidade de peixes.
- Bem, parece que te ajuizei mal, rapaz. Pensei eu.
Preparava-me para subir a falésia quando a Fátima me diz:
- Olha, o rapaz vem na nossa direcção. E com ele traz alguns peixes!
Meia dúzia de passos depois, o rapaz estava à nossa frente.

- Amigo, disse ele. – Nós somos seis pró jantar. Comemos um peixe cada. Como cacei nove, sobram estes três. Será que os querem pra vocês?
E estende-me três belíssimos sargos!
Eu olhei para a Fátima. Olhei para o rapaz. Olhei para os sargos já nas minhas mãos e com uma cara de completa incredulidade disse-lhe que sim, que os queria.
Agradeci. E iniciámos a subida da falésia com o terrível desconforto de trazer no saco o peixe que não pesquei, oferecido por uma pessoa que não conhecia e que na única oportunidade que tivera, julgara mal.
Durante a subida, do meio da rocha onde estava, o rapaz ia-me acenando com a mão, a que eu ia respondendo, como velhos amigos, até que a sua imagem não passava mais do que um ponto negro na paisagem.
Não nos voltámos a encontrar mas creio que não mais esquecerei o seu sorriso confiante, e a lição de humildade deste caçador de peixes.

E é assim, amigo Charraz, que me confesso pecador mentiroso, no momento em que os peixes se encontravam na mesa, ao responder peremptório à tua dúvida, que sim, que os tinha pescado e que não tinha passado pelo mercado na véspera.
Orgulho ferido de pescador. Mas, lá diz o ditado: Mais vale tarde do que nunca!

2 comentários:

Rogério Charraz disse...

O que tu não sabes é que eu tenho o dom de falar com os peixes (sim, mesmo com os mortos!), portanto sabia porque estava a perguntar! Apenas procurava a tua redenção...

zmsantos disse...

Sei que és um rapaz com muitos dons, mas essa tua faceta Antoniana, ainda por cima espírita, cofesso que desconhecia.

O que é verdade é que vi a luz, depois desta confissão, e desta vez não é efeito do Jameson.

É o que têm de bom os amigos. Sempre a surpreender-nos...