Resolvi publicar este comentário feito por Naia Castro num 'Post' anterior de forma a que fique mais visível para quem aqui vem (Naia, tem que deixar de
postar nos atrazados)
Palavras para quê? é Naia Castro no seu mais puro, contraditório e arrojado discurso, pleno de desafios e que dá a este humilde espaço a intelectualidade que nunca ousou ter.
«Sr Perdigão,
Hoje gostaria de lhe falar de trivialidades... de coisas ditas “normais”... do dia-a-dia, compreende? De coisas a que ninguém dá importância, em que ninguém repara e que normalmente tropeçam sempre à frente do nosso nariz ... e não as vemos...
1ª Trivialidade
Há uns tempos uma colega de trabalho dirigiu-se a mim porque precisava de uma informação e começou:
- “Olhe desculpe, eu...”
Não a deixei continuar e perguntei:
- “Desculpo” do quê?
Perplexa e olhos nos olhos com aquela forma incisiva que tenho de travar as pessoas, respondeu:
- Desculpe, de nada, é uma forma de falar.
Ao que eu respondi:
- “Pois, é que quando se pede desculpa deveria ser por qualquer coisa que se faz, mas então diga lá o que quer.”
- “Sabe eu precisava de uma informação e sei que não é a si que devia perguntar, mas”...
Interrompi-a novamente:
- “Se não é a mim que deve perguntar, não pergunte”.
Cada vez mais atrapalhada, respondeu:
- “Bem, não era nada disto que eu queria dizer”
Tive que interromper, de novo e com voz autoritária mas a sorrir respondi-lhe:
- “Oh mulher! Vá directa ao assunto e diga o que quer, sem pedir desculpa, sem dizer que não devia dizer!”
Sorriu, respirou de alívio e sem rodeios foi directa ao assunto, disse o que realmente queria dizer, dei-lhe a informação, agradecemo-nos mutuamente e ela foi-se embora.
(É tão mais fácil, tão mais simples quando dizemos o que queremos, quando somos autênticos... detesto tretas! Não me venham com tretas! Parem de usar o “desculpe” para tudo e para nada! Parem de usar frases feitas para aplicar sem sentido nenhum!)
2ª Trivialidade
Com alguma regularidade tenho reuniões de trabalho. Mesas c/ blocos, canetas, águas, tudo a rigor. Habituei-me a reparar que no final das reuniões a maior parte das pessoas deixa as garrafas de água, ainda com água e estas teêm que ser deitadas fora. Normalmente sou a única pessoa que leva a garrafa consigo, quando ainda tem água e a consome até estar vazia.
(Habituei-me a reparar porque faz uns anos que vi um programa sobre os recursos naturais do planeta....O degelo das calotes, o aumento das temperaturas, a falha tectónica que percorre o planeta e teima em avançar e dá a ideia que nos há-de separar, daqui a uns milhões de anos em duas partes, uma para Norte e outra para Sul, a devastação da amazónia em troca do vil metal, o Kilimanjaro a ficar careca, o aumento de tempestades de areia – ai o Sahara, tão longe e cada vez mais perto – enfim, um sem número de coisas que me fazem sentir a vida tão breve, tão especial e tão estúpida.... sabe porquê Sr Perdigão? Porquê que passei a olhar as garrafas de água no final das reuniões? Porque nesse programa diziam que, em média, na Índia, morre uma criança por dia, com sede. Mais palavras? Mais trivialidades? Pois bem!)
3ª Trivialidade
Faço parte do povo. Do povo real (e com muito orgulho!). Mas há que definir de que “Povo” estou a falar: do povo que sai cedo e volta tarde, do povo que tem prestação no final do mês, do povo que se debate com um lugar, no fim do dia para arrumar o carro na chamada AML (adoro estas siglas – Área Metropolitana de Lisboa!). Esclarecido o conceito de povo (eu e os conceitos!), a 3ª trivialidade é sobre a atitude no arrumanço dos carros . Tenho uma postura muito crítica e pela segunda vez me orgulho da minha pessoa e ainda dentro do mesmo parágrafo (Oh Sr Perdigão, hoje até estou com sentido de humor...). Porquê o orgulho próprio? “Elementar”, meu caro amigo:
- porque nunca “tranquei” nenhum carro;
- porque quando recorro ao arrumanço nos passeios preocupo-me em verificar se ficou espaço para os peões passarem sem terem que recorrer à estrada;
- porque não me importo de sair 7, 8, 10 minutos mais cedo para ir buscar o carro à única praceta onde arranjei lugar;
- porque nunca, nunquinha mesmo molhei ninguém em dias de chuva! E a esta não faço comentários – esta é só para prós e para o povo, porque só o povo sabe o que é estar numa paragem de autocarro, ou a andar num passeio, em dia de chuva e ser banhado pelos automóveis!
4ª Trivialidade
Bla bla bla e bla e blablabla.
5ª Trivialidade
Bla, bla, etc, etc. Etc.
Sr Perdigão, desde início que disse que considero cada vez mais importante sermos cuidadosos, atentos, disciplinados... e não é só com os conceitos e com as ideias... aliás, como já deve ter percebido as ideias só se atingem pela praxis e a existência é um precedente.... hoje tentei falar do cuidado com as palavras... em não usa-las sem sentido... com o cuidado com os terceiros... ai ai os terceiros!
Acho piada que nunca vemos os terceiros como vemos os “nossos”. Ficamos lixados com “f” quando alguém fala mal da “nossa” mãe, do “nosso” pai, do “nosso” irmão, dos “nossos”, compreende? Mas afinal os outros, os “terceiros” também têm os “nossos” (que são deles).
A piada (sem piada nenhuma!) está em que:
- para além das “nossas” mães, as mulheres do mundo inteiro são, já foram ou virão a ser, também, mães de alguém;
- para além dos “nossos” pais, os homens, do mundo inteiro são, já foram, ou virão a ser, também pais de alguém;
(quer que repita a frase para os irmãos, para os tios, para os outros parentescos?...)
A piada (sem piada nenhuma!) está em que a minha mãe se tiver um acidente na estrada porque não tinha passeio para andar é uma tragédia. Mas se for outra mulher qualquer, por sinal potencial ou efectiva mãe de alguém isso não me lixa absolutamente nada.
Mas a pior piada disto tudo é que se os meus filhos nascessem na Índia, principalmente se fizessem parte da Casta dos Intocáveis e um, ou dois, fizesse parte das estatísticas daquele programa que vi, seria a tragédia (para mim obviamente!).
Porque na realidade eu até estou em Portugal e a água do Luso, do Fastio e das mais belas serras deste país é deitada fora no fim das reuniões, porque nem todos tinham sede.
(...)
O mundo está demasiado cheio de trivialidades, de “coisas do dia-a-dia”...
Agora até gostava de ver o nosso “amigo sem medo” vir-me com as teorias da Essência... Ou outro amigo qualquer (seu e/ou meu) vir-nos com as teorias da Essência... da necessidade hipócrita que todos têem em moralizar, em etiquetar, em pintar de azul o negro da brevidade destas míseras existências... 6, ou 8, sei lá, ou 9 biliões de existências! No mais belo planeta do Universo! No único em que podemos respirar! No único em que há as cores do arco-iris, no céu, na terra...Com uma vida tão breve! Tão mísera! Tão mesquinha! Tão hipócrita de teorias! Até um cetáceo tem maior esperança de vida que nós! Até a águia nos dá lições de rejuvenescimento para durar em média 70 anos!
Tanta trivialidade Sr Perdigão!
E eu aqui a gozar da vida e da saúde! Morrerei ainda hoje? Amanhã? Daqui a 20 anos? Que farei até lá? Por mim, pelos outros, pelos “nossos”, pelos “terceiros”, pelo país??? ... Que tretas irei dizer aos que vierem ver o que deixei?
Que tretas existencialistas, essencialistas, morais ou religiosas, que sistema ideológico, económico ou político vamos inventar para desculpar e remediar a trampa toda que aqui andamos a fazer?
Com sorte isto ainda rebenta primeiro e não teremos nada para dizer. Com sorte até teremos um ordenado razoável e pagamos, comemos e não refilamos!
Com sorte este fim de semana prolongado hei-de descobrir um oásis, divertir-me a valer, ocupar o meu espaço e não pensar mais na Índia!
Agradeço, Sr perdigão! Agradeço sempre e já sabe porquê... Porque estou aqui!
Naia Castro»